Eu estou vivendo como um sapo! Ninguém pode aguentar tanta água assim, só eu. Cortaram a minha luz por falta de pagamento. Eu ainda devo ter dinheiro mas não fui pagar a conta porque eu não saio do apartamento há meses. Toda essa água pinga do teto. O cara que mora no apartamento de cima deve ser um idiota. De onde vem tanta água?
A última vez que minha mulher apareceu aqui ela levou meu gato, disse que se eu quisesse viver nesse lugar horrível o problema era meu, mas o gato não merecia isso. Ela estava certa. Ela quase sempre está, acho que é por isso que eu não saio daqui, aqui só eu estou certo.
Eu disse que vivo como um sapo não só porque meu apartamento parece um brejo, mas porque meu maior divertimento tem sido esperar pelos insetos que entram pela janela e caçá-los, vivos, pra colocá-los dentro dos potes vazios de maionese.
Eu gosto dos coloridos, principalmente das borboletas. Quanto mais cores melhor. Eu já tenho tantas guardadas que agora que meu gato foi embora talvez eu devesse comprar um sapo de estimação, pelo menos ele teria o que comer.
Abelardo
São Paulo, 28 de abril de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
No brejo da minha casa
terça-feira, 27 de abril de 2010
Jardim de inverno
Com os sons da tarde desenrolando o edredom e deixando o frio entrar,ela foi obrigada a acordar. Percebendo um cheiro sutil que vinha de fora, foi se equilibrando até o jardim, e chegando lá ficou parada por muito tempo.
Não havia ninguém lá, mas se houvesse diria depois para os conhecidos que no intervalo de uma caminhada ela mudou de rosto três vezes: Quando partiu era uma mulher amargurada com cara de cansada, aos poucos seus traços foram suavizados e sua expressão perdeu a gravidade, e finalmente seu rosto empalideceu e seus olhos foram perdendo o foco, mirando o infinito.
Não havia ninguém lá, mas se houvesse diria depois para os conhecidos que no intervalo de uma caminhada ela mudou de rosto três vezes: Quando partiu era uma mulher amargurada com cara de cansada, aos poucos seus traços foram suavizados e sua expressão perdeu a gravidade, e finalmente seu rosto empalideceu e seus olhos foram perdendo o foco, mirando o infinito.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Samuel
Algumas pessoas enxergam as luzes coloridas da cidade todos os dias e já deixaram de se impressionar por elas há tempos, aliás, estas são a maioria. Porém existem outros que não se cansam de pensar nelas como algo extraordinário. Afinal, os homens somos feitos para caçar e morar em cavernas. Somos os mesmos homens de 10000 anos atrás, mas vivemos em cidades iluminadas.
Samuel estava voltando a pé do trabalho e mal podia esperar para chegar em casa e começar a pintar o quadro que tinha imaginado durante aquela tarde. O quadro já estava inteiro pintado em sua cabeça, provavelmente seria o melhor de todos que já havia feito, mas ainda faltava decidir as cores. E foi por isso que ele pegou um caminho diferente para casa, um que passava pelo centro da cidade. Assim vendo as cores dos anúncios luminosos e dos prédios, ia escolhendo as cores.
Samuel estava voltando a pé do trabalho e mal podia esperar para chegar em casa e começar a pintar o quadro que tinha imaginado durante aquela tarde. O quadro já estava inteiro pintado em sua cabeça, provavelmente seria o melhor de todos que já havia feito, mas ainda faltava decidir as cores. E foi por isso que ele pegou um caminho diferente para casa, um que passava pelo centro da cidade. Assim vendo as cores dos anúncios luminosos e dos prédios, ia escolhendo as cores.
Foi dando voltas pelos quarteirões iluminados, afinal aquela obra merecia um pouco mais de dedicação na escolha das cores que o habitual, era uma obra especial. Mas foi em uma dessas voltas que Samuel sentiu uma pontada no peito. Seu pai e seu avô haviam morrido do coração, mas não podia ser! Não justo agora, ele ainda não tinha feito um quadro tão bom quanto o que estava indo fazer. Primeiro apertou o passo para ver se chegava em casa, mas logo parou, não conseguia mais andar, era impossível.
Percebeu então que já não tinha mais jeito, que era sua hora, de repente o quadro não era mais tão importante. As luzes piscavam na sua frente e eram azuis vermelhas e verdes. Que cor seria a última? Agora essa era sua única preocupação. Não queria mais saber do quadro, ou para onde iria depois, queria só saber qual seria a última cor que veria na vida. Mas enquanto pensava nisso as cores alternavam-se cada vez mais rápido, até que já não era mais possível distinguir a cor da vez. Não teve tempo de se conformar com aquele último percalço. Era o que faltava para lhe roubar as últimas forças e o fazer fechar os olhos.