quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um ano com Beatriz

Durante quase um ano ela apareceu todos os dias no meu apartamento. Foi meu primeiro ano fora da casa dos meus pais e eu aceitava a presença dela com algum desconforto, que vinha muito provavelmente do fato de nós praticamente não nos falarmos.

Naquela época eu chegava às 19h em casa, depois de terminar de visitar o último cliente às 18h e passar uma hora no trânsito. Costumava ser uma hora interessante, era o tempo que eu tinha pra ouvir música e até ler um livro se o transito estivesse especialmente parado. Eu trabalhava muito o dia inteiro, e sabia que quando chegasse em casa ela estaria lá.

Nós nos vimos pela primeira vez em um boteco perto de casa, enquanto eu tomava algumas pra esquecer um dia pesado, com muito trabalho e pouco dinheiro em vista. Ela sentou em uma mesa, pediu um copo de vodca com limão e eu fui até lá me apresentar.

Naquela noite eu a chamei pra ir até o meu apartamento e descobri praticamente tudo que eu sei sobre ela até hoje: que chamava Beatriz, tinha fugido da casa dos pais em Porto Alegre, entrado e desistido do curso de medicina na PUC, e que transava loucamente bem.

Eu estava realmente interessado nela e no dia seguinte fui direto do trabalho para o bar. Nós não tínhamos combinado nada, mas eu pensei que por falta de outra opção, o boteco perto de casa era nosso ponto de encontro. Esperei uma hora e desisti, mas chegando no meu prédio, ela estava com o carro estacionado na frente e me esperando. Eu fui até lá, nós nos cumprimentamos e subimos para o meu apartamento.

-Trouxe uma erva, você curte?

-Curto.

Nós fumamos, ela me contou como foi o dia dela (ela estava trabalhando em uma loja no shopping, eu acho), eu contei como foi o meu, nós transamos e ela foi embora.

Assim passou uma semana, quando ela pediu a chave do apartamento. No dia seguinte eu fiz uma cópia e dei pra ela.

Agora ela não me esperava mais lá em baixo. Quando eu chegava ela estava no sofá deitada, ou na cozinha comendo alguma coisa. No começo foi legal, a gente transava toda a noite, mas estávamos conversando cada vez menos, até que no fim do primeiro mês eu comecei a me sentir incomodado com a presença dela.

O fato de a gente não trocar mais palavras do que ‘oi’ e ‘tchau’ e a certeza de que todo dia quando eu abrisse a porta ela estaria lá me faziam ficar com um pouco de medo dela, afinal eu tinha praticamente uma desconhecida morando em casa. Eu não sei se ela tinha algum problema, mas com certeza o nosso relacionamento era estranho. Talvez fosse ela, talvez fosse eu. Agora pensando bem, eu acho capaz que ela até tenha se esforçado mais do que eu pra evitar aquela situação, mas eu estava tão cansado do trabalho e depois tão transtornado com a estadia dela lá que talvez tenha dado a entender que falar pouco ou não falar era o que eu esperava do nosso relacionamento.

Neste passo, no quarto mês a gente nem transava mais, e até o fim do que eu acho que foi um ano, quando ela parou de aparecer, e eu dei falta do meu disco do Boards of Canada e do meu livro do Murilo Rubião, nós nem ficávamos mais no mesmo cômodo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Eu estava no fundo do ônibus, estava chovendo pra caramba lá fora, mas aquilo não me incomodava. Chegou o ponto em que eu descia, eu dei o sinal, e o motorista parou a dois metros da calçada, tinha um maldito rio na miha frente:
-Você pode ,por favor, parar mais perto da calçada?
-Não.
-Porra, você só precisa colocar o pé na merda do acelerador e andar dois metros, daqui a um minuto você vai ter esquecido de mim. Eu estou indo pro trabalho, eu faço o turno da noite, se eu pular nesse rio eu vou ficar com o sapato encharcado o resto do dia, e vou lembrar até amanhã de você e de como você foi um babaca!
Ele não respondeu e deixou a porta aberta, mergulhei naquele rio de água suja e me molhei até os joelhos.
Atravessei a rua, cruzei o caminho de uma menina linda fumando um cigarro de baixo do guarda-chuva. Chovia muito.
Andei uma quadra e cheguei em casa. Tomei um banho quentíssimo e deitei na cama, não precisei nem preparar uma bebida, dormi bem como não dormia há anos.


Abelardo
São Paulo, 28 de abril de 2011

quarta-feira, 28 de abril de 2010

No brejo da minha casa

Eu estou vivendo como um sapo! Ninguém pode aguentar tanta água assim, só eu. Cortaram a minha luz por falta de pagamento. Eu ainda devo ter dinheiro mas não fui pagar a conta porque eu não saio do apartamento há meses. Toda essa água pinga do teto. O cara que mora no apartamento de cima deve ser um idiota. De onde vem tanta água?
A última vez que minha mulher apareceu aqui ela levou meu gato, disse que se eu quisesse viver nesse lugar horrível o problema era meu, mas o gato não merecia isso. Ela estava certa. Ela quase sempre está, acho que é por isso que eu não saio daqui, aqui só eu estou certo.

Eu disse que vivo como um sapo não só porque meu apartamento parece um brejo, mas porque meu maior divertimento tem sido esperar pelos insetos que entram pela janela e caçá-los, vivos, pra colocá-los dentro dos potes vazios de maionese.
Eu gosto dos coloridos, principalmente das borboletas. Quanto mais cores melhor. Eu já tenho tantas guardadas que agora que meu gato foi embora talvez eu devesse comprar um sapo de estimação, pelo menos ele teria o que comer.


Abelardo
São Paulo, 28 de abril de 2010

terça-feira, 27 de abril de 2010

Jardim de inverno

Com os sons da tarde desenrolando o edredom e deixando o frio entrar,ela foi obrigada a acordar. Percebendo um cheiro sutil que vinha de fora, foi se equilibrando até o jardim, e chegando lá ficou parada por muito tempo.
Não havia ninguém lá, mas se houvesse diria depois para os conhecidos que no intervalo de uma caminhada ela mudou de rosto três vezes: Quando partiu era uma mulher amargurada com cara de cansada, aos poucos seus traços foram suavizados e sua expressão perdeu a gravidade, e finalmente seu rosto empalideceu e seus olhos foram perdendo o foco, mirando o infinito.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Samuel

Algumas pessoas enxergam as luzes coloridas da cidade todos os dias e já deixaram de se impressionar por elas há tempos, aliás, estas são a maioria. Porém existem outros que não se cansam de pensar nelas como algo extraordinário. Afinal, os homens somos feitos para caçar e morar em cavernas. Somos os mesmos homens de 10000 anos atrás, mas vivemos em cidades iluminadas.

Samuel estava voltando a pé do trabalho e mal podia esperar para chegar em casa e começar a pintar o quadro que tinha imaginado durante aquela tarde. O quadro já estava inteiro pintado em sua cabeça, provavelmente seria o melhor de todos que já havia feito, mas ainda faltava decidir as cores. E foi por isso que ele pegou um caminho diferente para casa, um que passava pelo centro da cidade. Assim vendo as cores dos anúncios luminosos e dos prédios, ia escolhendo as cores.
Foi dando voltas pelos quarteirões iluminados, afinal aquela obra merecia um pouco mais de dedicação na escolha das cores que o habitual, era uma obra especial. Mas foi em uma dessas voltas que Samuel sentiu uma pontada no peito. Seu pai e seu avô haviam morrido do coração, mas não podia ser! Não justo agora, ele ainda não tinha feito um quadro tão bom quanto o que estava indo fazer. Primeiro apertou o passo para ver se chegava em casa, mas logo parou, não conseguia mais andar, era impossível.
Percebeu então que já não tinha mais jeito, que era sua hora, de repente o quadro não era mais tão importante. As luzes piscavam na sua frente e eram azuis vermelhas e verdes. Que cor seria a última? Agora essa era sua única preocupação. Não queria mais saber do quadro, ou para onde iria depois, queria só saber qual seria a última cor que veria na vida. Mas enquanto pensava nisso as cores alternavam-se cada vez mais rápido, até que já não era mais possível distinguir a cor da vez. Não teve tempo de se conformar com aquele último percalço. Era o que faltava para lhe roubar as últimas forças e o fazer fechar os olhos.